Sonhar é permitido                                                                               

-“Nunca mais nos veremos!” disse Alice ao chapeleiro.
O chapeleiro lhe respondeu:
– “Cara Alice, é no sonho e na memória que nos encontraremos”. Alice interpelou: – “Mas o sonho não é realidade”! Ao que ele vociferou:
 – “Quem sabe o que é e o que não é”?                                                                     

Chamada encantada para o mundo da realidade que, como bem assinala Freud, não é feita de fatos mas sim do que é capaz de perdurar! Se tem algo que nem mesmo os mais pragmáticos podem negar é o poder de fazer durar que tem o reino da memória cuja fantasia faz transportar. O tempo pode passar, os fatos atropelar,mas não há nada que faça passar o que um dia fez-se significante! Por aí que Freud entrou. Por onde a lógica cartesiana, pura e simples, não pode alcançar: a via régia do sonho. Quando sonhamos somos transportados para regiões onde a luz da consciência não tem permissão para entrar. Situação singular onde não há contradição. Nem de tempo, nem de espaço, nem de condição sócio-econômica ou cultural. No sonho elementos estranhos se encontram em real combinação. Em uma só cena, não aleatoriamente, fazem-se arranjos psíquicos inimagináveis à luz do dia, dia a dia cheio de responsabilidades e pretensões morais. No sonho aberrações inaudíveis comparecem, “bichos escrotos saem dos esgotos” e fazem-se presentes, claro, tudo propositalmente. Assim como emergem lembranças doces, recordações ardentes que contém cheiro, cor e musicalidade. Linguagem metaforonímica: trabalho do sonho, trabalho do inconsciente. Maneira singular e hábil de deixar escapar aquilo que não tem lugar ao sol escandaloso da dura realidade. Assim é quando sonhamos a noite e deixamos o recado inconsciente chegar. O que ele diz? A cada um decifrar, tarefa muito difícil por si só! Donde a censura já está a postos ao despertar, no entanto, facilitada quando um psicanalista há! A memória é bonita, e ao mesmo tempo inadequada, vem de repente, a nado, do nada. Mas como diria Guimarães Rosa “aquilo que lembro, tenho.” Querendo ou não estará sempre lá.


Isabella Castro é psicanalista.

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