Por Isabella Castro

Psicanalista e autora da revista Psicanalisarte

Em Histoire de Adele Truffaut, a bela Isabelle Adjani protagoniza a vida, não só de Adele Hugo, mas de milhares de mulheres que enlouqueceram por amor. É sabido que existem inúmeras acepções do que venha a ser o amor. Há versões sobre o amor romântico, o amor em seu aspecto mais simbólico, em seu aspecto mais imaginário, amor parental, amor incondicional, amor cortês. No entanto, o que pretendo aqui levantar a partir da obra cinematográfica que me inspirara é a questão da fantasia que se desenrola na relação objetal a despeito do objeto. No filme Adele se apaixona perdidamente pelo tenente Pinson, que está em outra cidade diferente da sua e para onde ela se muda na busca de encontrá-lo. Na livraria, que logo passa a frequentar tem a primeira notícia a respeito do rapaz. Depois, dentro da própria casa onde residia com um casal de idosos a quem não revelara sua verdadeira identidade, Adele escreve e envia uma carta através do senhor que iria a uma festa onde o tenente estaria. O senhor assim o fez, mas, o tenente nem a leu muito menos a respondeu. Adele não leva em conta o fato e continua numa busca desenfreada pelo tenente Pinson.  Até conseguir falar com ele, ele vai até a casa onde ela está atendendo a seu pedido, mas, lá ele lhe diz com todas as letras que se ela o ama como diz que ama que retorne a sua casa e compreenda que ele não a desposará. Esta fala clara e limpa do tenente Pinson não a detém. Ela continua a persegui-lo e a escrever-lhe cartas diariamente, algumas ela envia, outras não, mas em todas ela o trata como seu amor, mesmo sabendo que ele não lhe demonstra amor algum por ela e tão pouco responde a seus chamados. Adele parece se manter presa a uma lembrança do passado onde parecem ter estado juntos, mas o que importa é que ela o vive no presente de maneira unilateral desprezando os dados de realidade. Quanto mais o tempo passa mais ele foge e mais ela isso ignora. Adele, atormentada por sonhos e crises de identidade, permanece a ele ligada gastando todo seu tempo e energia a lhe endereçar cartas. Assim como em seu pensamento, nelas, ela o trata como o seu amor e declara com ele querer se casar. Em algumas de suas investidas ela o avista com outra mulher em beijos e abraços, mas isso não a detém em sua busca desenfreada por tê-lo, por possuí-lo, ao contrário, ela se humilha ainda mais lhe oferecendo dinheiro e até mulheres outras com quem poderia se deitar sem que ela disso se queixasse. Adele estava disposta a qualquer sacrifício para ficar ao lado de seu amado, no entanto o amado não lhe corresponde e não lhe promete absolutamente nada. Ela não liga, segue desenfreada na tentativa de convencê-lo a estar com ela a qualquer preço. Seu pai, o famoso poeta francês Vitor Hugo, lhe faz inúmeros pedidos para que à casa retorne, se não por ela, por ele que sentia saudades e pela mãe que estava enferma. Ela não leva em conta as cartas da família, apenas se beneficia da mesada que lhe enviavam para se manter na pequena cidade. Além da moradia e das inúmeras resmas de papel que comprava, nada mais à moça importava, a não ser a estar com o rapaz por quem se encontrava obcecada. Não tinha amigos, não tinha interesse por pessoas e assuntos outros e não dava ouvidos nem olhos ao rapaz da livraria que com ela se encantara desde o início. Para a jovem bonita e rica, só existia um objetivo na vida chamado Pinson. Faz loucuras durante os anos de luta com todos os tipos de “rastejamento”, e em um deles busca atrapalhar o casamento do tenente com uma moça, inventado estórias para o pai da candidata que contra intervém. Não se importa se há correspondência do objeto amado, passa a aluciná-lo no rosto de outros soldados. Por falar em estórias, ela inventa para si mesma e para seus pais que havia se casado com o tenente, fazendo com que a notícia falsa fosse publicada num jornal francês, porém, na qual ela acredita. O que acontece com o eu quando o sujeito se encontra em um estado obcecado de apaixonamento? Um verdadeiro desaparecimento! Uma desintegração da própria personalidade, onde o eu dá lugar ao objeto amado e busca deformá-lo de acordo com suas próprias fantasias, sem levar em conta o outro e os dados de realidade. Com Adele acontece literalmente a supressão do eu, que dá lugar a um estado de alienação do tipo psicótico. Adele (a dele), já completamente dominada pela realidade psíquica em detrimento dos fatos, foi levada de volta a França onde morreu, como Camille Cladeul de Rodin e tantas outras, louca! Mergulhada num delírio de amor.

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