A grande genialidade do autor russo foi sua capacidade de produzir um estilo de literatura completamente singular em termos de poética. Dostoiévski inaugura o estilo polifônico, que é conceber várias vozes que dialogam entre si nas figuras de seus personagens e do herói, em diversos planos e de forma multivalente, sempre possuídos pela realidade das ideias e consciência.
Os personagens sofrem, são angustiados, constritos, padecidos, afetados pela culpa, se suicidam, matam o próximo, são acometidos de amor não correspondido, são ressentidos, se amam, se odeiam, agonizam e são sempre levados ao limite da consciência e dos afetos na condição de existir.
Em uma de suas obras “O Sonho de um Homem Ridículo”, é narrada a estória de um homem angustiado, que decide se matar, mas é salvo por um sonho. No sonho, ele é levado para um tipo de paraíso em que as pessoas não falam, isto é, não usam a palavra, porém se comunicam num estilo de metalinguagem, que apresentam uma realidade de mundo e vida tranquila, pacífica e abundante de amor.
Muito surpreso com essa realidade pacífica e harmoniosa das pessoas e das relações mantidas, fosse no campo intrapessoal, interpessoal ou das relações com o mundo, o personagem quer a todo custo des-cobrir o que os fazem felizes e livres. E, para isso ele usa da palavra, num mundo já ausente de palavra, não mais presos na palavra. Ele palavreia. Mas o faz sob a condição da mentira. Ele cria uma mentira que tem o poder de destruir a harmonia das relações e daquele mundo.
Aquilo que era paz se transforma em tormenta. Ele implanta o mal e vendo a desordem que havia virado aquele mundo, o paraíso que nunca foi suportado, se torna infernal e ele desperta desse sonho. Afetado pela própria verdade, a saber, a verdade de quem sonha, portanto, de quem deseja, ele irrompe em novas realidades. Ele aprende a amar!
Mais uma vez Dostoiévski surpreende seu leitor, ao mostrar que o sujeito, quer seja de forma mal-dita, ou não, há de encontrar a sua verdade. É preciso dizer, mesmo que seja mentindo. Nisso existe um furo moral, em que a mentira é uma das verdades do sujeito. E quando apropriado da sua verdade, ela o liberta. E, assim foi. Quando o personagem se deu conta de que a sua mentira contada no paraíso era a expressão da sua verdade como sujeito, criador do seu próprio inferno, ele acorda, e des-cobre a morte, senão viver em amor.
Ele volta do sono e do sonho portador de uma verdade, a saber a sua, que para viver, e viver bem, era preciso amar. Se ser ridículo era estar fora da ordem, desalinhado e distante do comum, passar do suicídio para o re-viver significou saber contar, mesmo que em “mentira” a sua verdade.
O que nos salva? Dostoiévski responde, a verdade. Freud amplia, a verdade do sonhador, portanto, a própria verdade. Lacan assevera, a benção de viver é da ordem do bem-dizer, mesmo que maldito.
Leandro Pereira- Para além da psicologia, com uma temporada na Sibéria, faz pão, manteiga e vende vinhos.

2 thoughts on “Dostoiévski: A Verdade que Liberta

  1. Perdoe minha ignorância, mas vendo pela visão cristã, João 8:32, que a verdade também nos liberta, seria equivalente ao texto Dostoiévisk?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *