Isabella Castro

Que Freud mexeu no sexo todo mundo sabe. Explicou a diferença entre sexualidade e genitalidade. Demonstrou os primeiros sinais de prazer na criança e suas distintas fases. Teorizou sobre os pontos de fixação libidinal responsáveis pelo desenvolvimento das psicopatologias posteriores, bem como inventou uma maneira própria de tratá-las chamada psicanálise.
O que quase ninguém sabe é que Freud mexeu no tempo. Revirou o passado e mostrou que muitas vezes ele não passa, conserva-se presente na memória. Olfativa, auditiva, tátil, visual, não importa, reexperimentamos o passado em forma de devaneio, alucinações ou mais adequadamente na palavra exclusiva da língua portuguesa: saudade!
Ele também mostrou nossa necessidade psíquica em antecipar o futuro que trouxe o mundo das ansiedades e atuais decorrências.
Nas análises, Freud detectou que uma das coisas mais difíceis que existem é vivenciarmos o presente, estamos sempre com um olhar voltado para trás e outro para frente, o que nos deixa muitas vezes ausentes.
Quanto tempo para uma análise? Colocar os pingos nos is, retomar o possível dos primeiros anos de vida e detectar os males feitos para além do bem. Amassar o barro, se sujar, revirar o cesto de roupas sujas da família. Chorar. Perdoar. Reconsiderar. Processo árduo e ao mesmo tempo sagrado em seu caráter de profundidade. Psicanalisar é separar um todo em seus elementos componentes, examinar suas partes minuciosamente, esquadrinhar, dissecar, investigar. Isso tudo leva tempo, mas um tempo particular que não é o mesmo para todos, mas é um para cada um.
“Temos nosso próprio tempo”, acertava o poeta da música brasiliense. Mesmo aqueles que nunca se submeteram ao processo de análise sabem contar sobre o tempo ser particular e muitas vezes diferente daquele que aponta o calendário. Os enamorados quando juntos não sentem o tempo passar, afinal felicidade é amiga da velocidade, quando se sente, já era! Por outro lado, os que estão em trabalho de luto não suportam a morosidade do tempo que não passa, tamanha a dor. As grávidas sabem contar bem como é o multiplicar do corpo próprio para construir um outro, os atletas narram com sangue o segundo que faltou para ganhar a simbólica batalha à qual se submetem.
Os sonhos são a experiência mais marcante nesse sentido, porque nos levam para lugares e tempos que conscientemente não nos seria possível. Através deles frequentamos a casa da infância, onde tudo era “grande” (claro, éramos pequenos) com seus cheiros e passos peculiares. O corpo despedaçado também se apresenta no sonho a exemplo de “eu era jovem, mas já estava velho”. O passeio que faz o pensamento também é uma experiência acrônica acessível a todos: a concentração que era pra estar na professora e vaza pra namorada, o compromisso que era pra ser com o alimento que está na panela e voa para o exterior, a noite que era pra ser de Natal mas não rolou, a festa que estava cheia de gente mas o sujeito se viu tão sozinho. A idade adulta que assinala o registro de identidade, mas o cara continua adolescente.
A atemporalidade própria ao inconsciente, que cotidianamente experimentamos, por um lado nos deixa contentes, afinal fizemos o que deu pra ser feito naquele momento, mas por outro nos coloca em constante loteria nas relações de convivência. Por exemplo, se para um havia chegado o tempo de recomeço e renascimento, para outro, pode ser que já tenha havido luto e falecimento simbólico, provocando assim os eternos desencontros sobre os quais nos fala Vinicius de Moraes. Se de um lado temos nosso próprio tempo, de outro não temos propriedade sobre ele. E ele se vai…
 

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