Carta sem destinatário

Carta sem destinatário

Ei, você!

Tinha que te escrever esta carta, embora eu saiba que ela jamais chegará em suas mãos. É uma carta sem destino e que jogo ao vento para que ele espalhe e dê curso conforme o rumo do tempo.
Fico imaginando como você está agora, provavelmente andando para pegar um ônibus, mas não um qualquer, o seu tem rumo certo. Ah! Sinto muito!! E aqui posso te falar disso quando lembro o que me disse sobre uma dessas suas andanças, lembra? Você falou que, às vezes, anda rápido para pegar o ônibus e este não te espera.
– “Não consigo correr”, – disse-me num dia desses.
Eu sei, eu vi você, você é manco e fiquei a imaginar a cena. Te vejo andando e dando o máximo de si. Aqui, onde estamos, os mancos não têm lugar, eu sei disso, ouvi você, tanto que lembro. Incomoda, sabia? Incomoda ouvir e nada poder fazer!!
Então, por isso, te escrevo, um dos motivos é poder te dizer o que não pode ser dito. O outro é o de que nos esbarramos, não somos estranhos entre nós, selamos nosso destino, um existe para o outro agora, isso não tem mais como mudar. Está ouvindo?
Outra ironia!! Mesmo que sem querer, somos obrigados a encontrarmos uns com os outros. Essa é difícil não? Não temos escolha, já nascemos predestinados. A boa notícia disso é a de que não estamos sós, ainda que pareça, a ruim é que isso é inevitável!
Ah! Queria tanto que você lesse isso que te escrevo, pensaria que estou louca, provavelmente, não estaria, de todo, destituído de razão, devo estar mesmo. Os loucos têm a ventura do incognoscível, sabia? Será, por essa, a razão da impossibilidade de cura? Bem! Essa ideia acabou de me ocorrer. Mais uma para causar espanto! Fique com essa!! Olha só, por falar em espanto, fiquei espantada com você e, para ser o mais sincera possível, incrédula diante do que vi. E foi o que vi que me fez desejar escrever essa carta
Poxa! Você me mostrou uma árvore e ela está lá no alto, entre o céu e a terra, provavelmente, pronta para receber a benção. Não desista, o seu corpo já não te impede de subir. Você pode não conseguir correr, mas é solto e pode se deixar levar pelo balanço do ar.
Quanto a mim, devo me conformar, estou, vigorosamente, presa ao chão e, por mais que ousasse querer, não conseguiria me desvencilhar. Mas, daqui, debaixo de onde estou, te vejo, bem lá no alto, perto do dom!!
Lamento a força com que o chão me prende, mas nada impede de conversarmos, cada um do seu lugar. Seu corpo pode estar calejado, o braço estragado e a fala arranhada, mas você pode voar.. Voe, pode ir e depois me diga como é ficar desse lado, do alto de uma colina com o vento a soprar.
Você está perto do céu! Chega mais, sem medo de ser devorado. Vai e me conte depois, firmaremos segredo e, malgrado todas as profecias, quem sabe o céu você poderá tocar!?
Obrigada! Fico com o sussurro do vento e guardo seu segredo comigo. Nada, agora, poderá nos afastar, mande notícias, o ar que respiro é também o sopro que te inspira. Adeus, você, não pronunciarei o seu nome em vão.
Ei, você! Adeus, gostei de te conhecer. A gente se vê por aí, a gente se fala num desses dias quaisquer.

Denise Fleury, psicóloga, mestre em pedagogia pela faculdade de educação da UFG. E membro em formação na Fazenda Freudiana.

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