Talento para o cotidiano

Talento para o cotidiano

Ver a chuva, ouvir a chuva, cheirar a terra molhada pela chuva. Tocar a chuva, beber a chuva, viver a chuva, existir na chuva em carne e osso. No chão. Andar abrindo trilhas no cerrado, comendo fruta no pé: cajuzinho da serra, mangaba, jatobá e o que mais vier! E beber água da moringa, e o sabiá cantando e a maritaca roendo o coco, e no fogão a lenha, a água cozinhando para o café. E o pensamento dando voltas e voando, volta ao livro, a música, ao Outro. Que será do outro? Que será de mim? Transitar no campo da linguagem encadeando palavras, sempre dirigidas ao Outro, construindo uma musicalidade própria, mas sem deixar de levar em conta que o limite do saber vai me aproximando do nada. Porque esse caminhar vai dar sempre em outra coisa, outro lugar. Mas, como “tudo gira em torno do falo” como nos assegura Lacan, é preciso desejar alcançar algo mais além do que essa trama neurótica que insiste em manter a repetição do mesmo, aprisionando o sujeito no sintoma. Deslizar, deslocar, surfar, sair do chão sem perder o pé. Caminhar pela estrada, fazendo-a principal sintomaticamente, sustentando que a ética do desejo contém uma estética e uma política ancoradas em laços discursivos que referidos ao outro, sempre remetem ao Outro da linguagem. Fazer análise é uma aposta nesse desconhecido; esse não sabido que é o inconsciente. É fazer falar, já que o sujeito quer ser escutado. E no falar o falhar, fazer falar a falha. Falhar- ser. É uma aventura que pretende levar o sujeito a um bem dizer, e daí a um bem viver cotidiano.

Eduardo Verano, psicanalista.

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