É preciso ter ideias esquisitas!

Goiânia, 29 de junho de 2010

Fazenda Freudiana de Goiânia

Seminário “É preciso ter ideias esquisitas! ”

Por Isabella Castro

Boa noite senhores! Será que faremos gol hoje como fez o nosso time ontem? O nosso gol, para que ele seja nosso, não depende só de mim que supostamente tenho algo a semear, de onde vem o termo seminário, mas de vocês que tem que estar na trave com um mínimo de defesa que permita a bola entrar. Ao mesmo tempo em que não daria nunca para ficar sem nenhuma defesa. Ainda mais quando se trata de psicanálise, de transmissão da psicanálise, essa experiência, essa forma de tratamento que é também uma disciplina, uma teoria, onde as defesas ficam todas que nem estava o goleiro brasileiro, ou seja, de pé! Nosso campo não é estéril, ele é fértil, um campo minado, pois o assunto é sexual.

“O sexual é aquilo sobre o que não se deve falar”, anuncia Freud em: “A vida sexual dos seres humanos, Conferências Introdutórias, Obras Completas”. Até por isso se fala em torno disso, que não se pode falar. Eu chamei esta minha fala de “É preciso ter ideias esquisitas! ”. Esquisito, né? Pois bem, eu li essa frase lá pelas quatro da manhã quando me debruçava literalmente sobre este livro: A prática psicanalítica hoje, do querido Charles Melman. Esse sujeito não tem ideia do quanto ele foi e é importante para mim. Eu até registrei isso, esse gol particular que foi no encontro com ele em 2006. Não sei ao certo a data, mas sei do gol. Eu não conhecia nada de sua obra quando a Fazenda foi convidada a participar de um evento em Porto Alegre, e eu fui, foi quando me deparei com aquela fala viva, molhada, eu mergulhei no que ele dizia, ele me dizia algo, me diz. Mas, em um determinado momento fiz uma pergunta extensa, muitas questões, eu reunia duas estruturas clínicas e isso é complicado, mas resolvi arriscar a questão a ele caloroso em todas as respostas, me deu um retorno “sine qua non”, ele não me disse: “merci pour posé de question”, ele me disse “merci pour ça écoute!” (Obrigada por sua escuta). Aquilo foi importante demais para mim, recados que a vida dá. Foi depois após esse encontro que decidi deixar de dar aulas na graduação. A escuta, como diz Lacan, não é uma questão de estar com os ouvidos limpos, mas de uma aquisição preciosíssima da análise pessoal. Escuta não se encomenda, se constrói!

E esta frase: “É preciso ter ideias esquisitas! ”, ela me pareceu muito oportuna para o tema em questão hoje, ou seja, o tema da neurose obsessiva. Ideias esquisitas não são um privilégio de obsessivos, tampouco interesse exclusivo de psicanalistas, mas uma referência ao fato de que algo pensa em nós à nossa revelia, o que fica escancarado após Freud e se evidencia na neurose obsessiva, não só na esquisitice das formulações quanto na precisão com que isso ataca.

Zwangsneurose

Coerção

O sujeito obriga-se a agir e pensar contra sua vontade.

– O sujeito é seu próprio inquisidor.

– Manifesta-se em rituais silenciosos para o público, mas barulhentos para si mesmo, pois são acompanhados de ruminação mental permanente.

– Na ruminação intervêm dúvidas e escrúpulos que consequentemente inibem a ação.

– Formações reativas se apossam, exemplo: piedade, limpeza e sentimento de culpa.

 

O termo neurose é de Willian Cullen (XVIII), cunhado a partir da constatação de que os órgãos, na abertura de cadáveres no exame post mortem, eles estavam limpos! Daí a ideia de criar uma palavra que designasse o conjunto de problemas da sensibilidade e motricidade que não se apresentam febre, nem relação com qualquer órgão. Assim nasce a noção moderna de neurose, cujo campo é marcado por doenças nas quais a medicina anatomopatológica não encontra explicação. Nas descobertas nomes se destacam com diferentes posições. Phillippe Pinel, Jean-Martin Charcot, Janet, mas foi Freud quem realmente revolucionou a história da neurose. Desde as publicações pré – psicanalíticas até seus últimos dias de vida, Freud se dedicou as neuroses passando por várias reformulações.

As neuroses produzem sintomas e a noção de sintoma em psicanálise é distinta da noção de sintoma em medicina, portanto, o tratamento a eles oferecido também é diferente. “Os sintomas são a atividade sexual dos doentes” (Freud). Sintoma quer dizer coincidência em grego, palavra de pouco crédito a princípio, já que nada acontece por acaso, mas um exame mais detalhado apontará isto de que a produção do sintoma neurótico se erigiu justamente por um esbarrar, um encostar de algo que foi experimentado, com algo que não foi simbolizado mediante a experimentação, ou seja, o sintoma é resultado de uma conciliação entre um prazer ou desprazer de origem sexual, em relação à sua proibição. Proibição que é da ordem da moral, da civilização, da cultura, mas que vai se organizar de maneira individual para cada um.

Qual é proibição mor para que uma civilização se sustente? A proibição do incesto, a inserção edipiana, lugar por excelência da questão neurótica, triangulação necessária presente nas neuroses.

Ao mecanismo que incide sobre o sexual promovendo o sintoma neurótico nomeou-se recalque – esse mecanismo que visa afastar da consciência tudo o que lhe parecer insuportável. Dimensão que justificará a grande tese freudiana de que o homem não é senhor em sua própria casa, a mente humana. A suposição de que o psiquismo equivaleria à consciência cai com Freud e este é considerado como habitado por uma dimensão inconsciente.

Tudo o que é recalcado é inconsciente, mas nem tudo o que é inconsciente é recalcado. O inconsciente é maior que o recalcado. Pois bem, o que se produzirá então numa neurose é decorrente de uma proibição, de uma proibição necessária à vida em comuna, mas que se organizará de forma inteiramente particular para cada neurótico. A neurose, então, de uma maneira geral é impeditiva, ela impede à produção, a criação e as relações também ficam muito prejudicadas por isso.

Ao mesmo tempo em que o sintoma mais somático e funcional na histeria e mais intrapsíquico na neurose obsessiva, provoca sofrimento, dor, ele também denuncia as modalidades de gozo de cada um.

“Há o ganho secundário de toda doença” e é justamente aí que se instalará o que Freud chamou neurose de transferência, o neurótico substituiu a repetição sintomática por uma nova relação, completamente nova no processo de análise, que na melhor das hipóteses abrirá possibilidades para novas formas de gozo, que não só aquela de sofrimento. Vamos nos deter um pouco no sofrimento/gozo do neurótico obsessivo.

O neurótico obsessivo caracteriza-se por um sujeito pouco à vontade com o próprio desejo e também com o próprio sofrimento. Diferente da histérica que já chega caricaturalmente arrasada, declarada, batendo bolsa e usando óculos escuros, logo ela chora, se deita e diz: “eu estou aqui! ”.

O obsessivo é discreto em seu próprio recado na secretária eletrônica e ao falar com você pela primeira vez, por telefone, na devolução do recado ou pessoalmente, ele dará um jeito de lhe dizer, que, ele, como em tudo o que faz, está pouco à vontade com o fato de buscar um analista. Ele lhe dirá, via de regra, que quer saber como isso funciona, quanto tempo dura, quanto custa e se há garantias. A essa altura ele já terá informações acerca do seu currículo e lhe fará uma espécie de enquete jornalística. E tentará coloca-lo, no caso o analista, no lugar de objeto que ele controla. Diz já ter lido Freud mesmo que pela internet, assim como vários autores das mais diversas áreas, ele é um devorador de letras, mas o problema é que retém todas elas, guarda para si, as pérolas e os porcos (em seu caráter anal) até ficar enfezado, cheio de fezes/letras em seu sintoma de constipação intestinal, pois o exercício de liberar as fezes lhe é via de regra dificultoso. Em relação direta com isso, ele também não gasta dinheiro à vontade, faz muitas contas e sofre com a questão, ou porque gasta dinheiro demais, ou porque gasta de menos! Tanto o faz. Daí os curiosos rituais de limpeza desenvolvidos por ele, e a ele mesmo observado com estranheza e esquisitice.

O neurótico obsessivo é um devorador à maneira escopofílica, pela proibição do ver, ele estabelece para si mesmo proposições que obrigam a fazer coisas à sua revelia. Por exemplo, rezar setenta e duas Ave Marias, nem setenta e um, nem setenta e três vezes, por exemplo, mas no fundo ele sabe que esse tipo de proporção é vazia de sentido racional, mas repletos de sentido emocional! Em geral são sujeitos cultos, inteligentes, mas que dificilmente conseguem usar a inteligência a favor deles mesmos, ao contrário, se cultivam em vidas modestas, sacrificadas e ritualizadas, programadas, sem sair do trilho, velha trilha do sintoma neurótico. Mas, como diria o ditado: quem não arrisca não petisca, ele petisca pouco, não gosta de se arriscar em lugares por onde não conhece. Daí muitas vezes se valer de drogas poderosas, tais como o álcool, que provocam a desinibição, desinibindo com o porre, a porra que se prende aos rituais, na tentativa de evitar o contato com o desejo. Desejar, deslizar, deixar rolar… O neurótico obsessivo possui uma curiosa relação com as medidas, mede o tempo, o custo, mede o outro em seu voyeurismo (geralmente usam óculos) mede os objetos, os autores, os amores. Claro, ele mede sua capacidade de amar e duvida dela o tempo todo, hesitando muitas vezes em se casar (riscos demais…).

Na lei da selva mede seu corpo, seu copo, seu falo para tentar saber de fato aonde alcança sua potência, da qual, cá entre nós, ele também dúvida. O que não é difícil de entender, afinal o acesso à virilidade depende da castração.

A posição de Ernest Lanser é exatamente ilustrativa disso, para não entrar em relação conflituosa com o pai novamente, pois tal hostilidade é conservada, ele mantém o pai vivo. (Referência ao famoso caso clínico O Homem dos Ratos)

Há essa relação especial com a voz paterna na obsessão e não se trata de uma voz necessariamente autoritária, aliás, pode ser exatamente ao contrário: um pai sem muita voz, muito passivo também pode requerer uma posição mais ativa de si mesmo.

É como se ele dissesse a si mesmo: para não derrubar o pai, caio, caio eu no automatismo da repetição: literalmente um morto vivo, uma alma de funcionário público que come no mesmo restaurante há trinta anos e pela janela noturna vê a dama passar. Será que ele estaria realmente interessado em transar com ela? Na neurose obsessiva o pensamento se torna sexualizado, ao resolver um enigma, uma fórmula, concluir um raciocínio: ele goza! Um alívio. Mas, daí para ele ver a banda passar tocando coisas de amor são outros quinhentos! Muita água SOLTA, ele pode escorregar e nadando no esforço de se fazer não desejante: “não almejo nada e me contento com o que tenho! ” Via de regra encontra uma potente religião que dê conta da questão. Mas dá?

E quanto mais ele se esforça, mais isso escorrega, escorre e vaza! O recalque fracassa e exige mais rituais de reposição, vigilância: Proibido desejar. A lógica do obsessivo é assim uma lógica binária que transforma sua própria existência em uma grande dúvida. Lado outro não fosse a duvida o que seria de nós? É preciso ter ideias esquisitas até para não cair no erro de se sujar de muitas certezas!

3 comentários em “É preciso ter ideias esquisitas!

  1. Prezadíssima amiga, este é mais um texto seu do qual gostei muito. Pra não variar, porque sou fã da tua escrita e isto é bom, mas é ruim, ou seja, o fã fica meio bobo. Mas quero perseguir a necessária objetividade e a saudável sinceridade. Este é um texto extremamente técnico, justificadamente, é claro, dado ao objetivo — acadêmico, científico — ao qual foi proposto. E neste aspecto não sou devidamente preparado para opinar, salvo uma boa carga de senso comum, com o mínimo de coerência, é claro.
    Devo confessar que senti-me um bocado neurótico ao ler suas considerações conceituais sobre neurose. Fazer o que?! Ou seja, me identifiquei. Até um certo ponto, em certos aspectos. Tenho um bocado de ideias esquisitas, desde há nem sei quanto tempo mais e é uma infindável briga com elas. Bom ou rim, faz parte de mim.
    O bom, enfim, foi este toque que você deu pra gente se olhar, tentar se reconhecer, se aceitar e procurar mudar no for possível, necessário, sei lá. Certamente as minhas neuroses, desde as mais preocupantes às mais, digamos, “normais”, sejam bem comuns a muitas e muitas pessoas, o que demonstra a necessidade de atentarmo-nos à questão.
    E pra gente do meio (acadêmico, profissional, e tal) acho que foi uma contribuição e tanto, embora eu seja, claro, leigo nesta questão.
    Enfim, minha cara, foi mais um texto provocador, consistente e necessário.
    Obrigado mais uma vez por acrescentar. Um grande abraço!

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