Mãos dadas

Mãos dadas

Isabella Castro

Foi há uns três dias atrás que reencontrei dois amigos num bar. Eles estavam sorridentes e ao mesmo tempo condizentes com a nova situação, a nova situação era tão “grande” que precisei escrever para explicar, afinal ela não era exclusiva daquele casal, ou melhor daquele ex casal. Meus amigos foram namorados no passado, mas se separaram e naquele dia haviam se encontrado por ocasião diferenciada, eles combinaram o encontro porque um deles havia passado por uma experiência difícil de adoecimento, e tendo quase morrido decidiu reencontra lá, ela, o grande amor de sua vida como todos um dia haviam testemunhado, aceitou. Ela aceitou e foram a um bar típico da época, e eu por sorte estava lá! Ela, após uma jornada de três casamentos terminados, curiosamente vestia branco para rever seu namorado de quase infância, afinal o que é a adolescência senão uma infância com os hormônios liberados? De cintinho dourado e cabelos cacheados, ela que é bem alta e altiva estava linda! Reluzente e inocentemente sorridente. Ele ainda gaguejava como nos tempos da escola, gostava de contar casos e relembrar fatos, ao passo que ela se preservava mais calada como se estivesse em dúvida se era sonho ou realidade… Eu tive a honra de presenciar aquele momento cuja fotografia me inspirara até aqui. É muito curioso reencontrar pessoas da nossa história, são tão diferentes… Os cabelos, os cabelos haviam ficado um pouco esbranquiçados com a ação do tempo, a pele de ambos com mais marcas e as mãos, ah as mãos me chamaram mais atenção que qualquer outra parte da cena inesperada. O casal, ou ex-casal de amigos da adolescência agora enlaçavam as mãos suavemente, levemente, com aquela cumplicidade que muitas vezes a necessidade pungente da adolescência não nos deixa ter. Suas mãos estavam simplesmente dadas! Aliadas, enlaçadas para o sempre! Mesmo que ele morresse no outro dia, mesmo que ela o ignorasse um dia, ou que eles nunca mais se vissem ou se tocassem, a entrega estava instalada. Intocada para sempre. “Amar é dar o que não se tem, a alguém que não o quer. ” Jacques Lacan

Um comentário em “Mãos dadas

  1. Interessante como experiência não vividas, num passado distante, ardentemente desejada, é capaz de sobreviver; talvez sejam filhos que se recusaram a morrer ou quem sabe se tornaram fantasmas difíceis de se ver.

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