No início era o verbo, agora também

No início era o verbo, agora também

A experiência do inconsciente é de domínio público, vez que qualquer um pode ser atravessado por lapsos de linguagem, surpreendido por sonhos enigmáticos, sofrer de sintomas corporais de origem psíquica e, principalmente, ser acometido pelo fato de se pegar fazendo coisas estranhas a si mesmo. A diferença se faz no tipo de endereçamento que se dá a tal experimentação.

Uns talentosos fazem do pincel seu companheiro, como Dalí ao exprimir os deslocamentos inconscientes na tela. Outros criam uma linguagem nova daquilo que já estava lá, como Guimarães Rosa, Chico Buarque, Gabriel Garcia Márquez e tantos outros. Alguns brincam com agulha: bordadeiras, dentistas, cirurgiões… brincadeira séria! Grande parte da humanidade encaminha tais experiências à religião e muitos encontram aí satisfação. A questão é que emanou, no final do século XIX, uma maneira nova de implicação com o inconsciente nomeada Psicanálise.

Mais que uma técnica ou profissão, a Psicanálise é uma inovação que, sob o regime da ética, aponta para o desejo ao apostar na escuta o inconsciente em suas requintadas manifestações. O tratamento psicanalítico possui algumas diretrizes como, por exemplo, a de não dirigir o sujeito em sua fala. É preciso deixar falar tudo o que vier à mente sem censura ou restrição e assim desenvolve-se com Freud a “talking cure” através da livre associação.

O psicanalista é aquele que ocupa o lugar de escuta, mas “para chegar à mudez quanto esforço da voz” como disse Clarice Lispector. Análises mal terminadas são perigosas, análises mal começadas também! Para fazer com que o inconsciente funcione a favor do sujeito e não contra ele, é preciso fazer falar bem, é preciso, portanto, estar atualizado com as próprias mazelas e alegrias: daí Lacan nomear o trabalho psicanalítico de ética do bem-dizer!

Vivemos em uma era agitada e desconfiada. Vizinhos não se conhecem, ensina-se às crianças a não cumprimentarem estranhos, fecha-se sempre a janela do carro e muitas vezes a da alma. O trânsito está caótico e a natureza revoltada com os destroços da civilização. Assim, chegam em nossos consultórios as queixas de pânico, ejaculação precoce, depressão, obesidade, anorexia, bipolaridade, dentre outros. Ora, ora, é como disse ontem a uma analisante: dois polos, quem não tem? A questão é fazê-los não se devorarem mutuamente. É preciso fazer falar o tapete do sintoma em seus desfiladeiros, mais que emplacar em diagnóstico. E, nesse sentido, a prática psicanalítica de Freud é a mesma desde o seu início, ou seja, ao redor daquilo que não funciona à maneira do animal, portanto, sempre de origem sexual.

Isabella Castro

8 comentários em “No início era o verbo, agora também

  1. Sem complicação, apoiando-se em uma linguagem clara, concisa, objetiva, foram-nos passados conceitos subjetivos com muita propriedade e determinação. Parabéns!

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