Índigo blue

Índigo blue

Adriana Castro

 

O céu, o mar, a música. Quadris revestidos de jeans, paredes pintadas de anil provocam olhares sutis que levam a inúmeras possibilidades. A criatividade do ser pensante diante das variações dos tons de azul compara-se ao movimento das ondas do mar, diversidade de elementos que são buscados nas profundezas e arremessados mar afora. Movimentos contrários que lambem a superfície sugando restos, lixo, excretos e almas.

Quem nunca buscou formas ao observar as nuvens no céu, ou quis viajar próximo à janela do avião só para apreciar o azul lá de cima?

Há quem se inspire nas insignificâncias dando significado a elas, captando imagens com suas modernas câmeras, ou simplesmente alucinando-as através do olhar. Gente que transforma lixo em arte, gente que se encanta com um pó semelhante ao sal, aquele que no escuro emana uma luz deslumbrante de cor azulada.

O Césio 137 fez diversas vítimas na capital goiana em 1987; o acidente nuclear se deu a partir de uma simples brincadeira de criança frente ao descuido de alguns (ir) responsáveis. São muitas as citações que envolvem cores em suas narrativas, mas incontestavelmente o azul se sobressai.

A vida se torna sem cor quando deixamos a paleta da simplicidade se perder no caminho da maturidade. Só conseguimos enxergar cores impostas por sedutores painéis iluminados das grandes metrópoles e suas convidativas vitrines. Ou, nos aparelhos eletrônicos enormes e modernos que habitam os lares e as mãos dos “cidadãos civilizados”, donde consequentemente, também me incluo…

A abordagem desse tema aqui, na revista Psicanalisarte, partiu de um diálogo entre Isabella e eu. Nos deparamos com a notícia da criação de um grupo formado por jovens e adolescentes na Rússia, onde um certo líder, através de desafios, seduz participantes de um suposto jogo virtual que leva jogadores a cometerem atos bizarros: mudanças de comportamento, mutilações e até suicídio. O polêmico movimento, por ser intitularizado “Baleia Azul”, nos provocou certo espanto, no mínimo curioso, no que se refere a associação do título à causa. Uma vez que o gigantesco mamífero pode ser um animal que provoca os nossos sentidos, nos certificamos do desencadeamento da criatividade… mas esse é um assunto para outra ocasião.

O azul e suas variáveis…

Como definir algo que se é absorvido pelo sentido visual? Eu diria que alguns fatores envolvem a cognição, tais como o pensamento, a memória e o raciocínio e complementam o que os olhos podem captar. A realidade existe somente no âmbito da imaginação, em sua completa abstração, portanto a definição de azul pode ter uma conotação de infinito, permitindo divagações na criatividade humana.

Ao discorrer sobre este tema, me veio à lembrança um episódio ocorrido na adolescência, final da década de 80, interior de Goiás, terra em que viviam meus pais. Eles, pessoas bem conhecidas e nós, irmãos, primos e alguns amigos, a procura de diversão, partimos rumo a um pequeno bar frequentado por nativos e prostitutas. Ambiente, no mínimo, fascinante para quem vê esse lado da vida pela primeira vez. Entre mesas de bilhar, garrafas de Campari e cheiro de desodorante barato, encostei minhas costas na parede do tal estabelecimento sem perceber que a pintura era feita de cal e pigmento azul. Consequentemente sujei minhas costas, daí em diante batizei o local de Buteco Blue, carimbada pela cor, passei a observar sua infinita beleza em degrade vida afora…

Percebe-se o azul em diversas citações. Letras de composições musicais, como Azul da cor do mar de Tim Maia… azul do pintor Pablo Picasso com seu monocromatismo; em títulos de filmes como o francês “Azul é a cor mais quente” que traz em seu enredo, um belo romance homoafetivo onde, os cabelos da protagonista são tingidos de azul combinando assim com seu olhar. Desde a criação do cinema colorido, percebe-se que a cor informa e transmite sensações de narrativa poderosa.

Na melodia dos compassos cantados em lamentos musicais por camponeses negros, divididos em grupos de trabalhadores das lavouras de algodão no Mississipi foi encontrada inspiração aos americanos de origem africana, para o nascimento do chamado BLUES! Definido por alguns como “um lamento solitário”. Originando a iniciação das big bands surgidas na década de 1930, o blues, sem sombra de dúvidas, é em sua cadeia hereditária, o pai do Jazz e consequentemente avô do Rock and roll!

Podemos citar a blue note como o erro mais perfeito…Explicar um efeito sonoro através de palavras é uma tarefa difícil para uma pessoa leiga como eu, mas se conseguirmos se valer da fala para tal, podemos adquirir um poderoso instrumento. Se o sofrimento pode gerar criatividade, e nas artes fazer nascer a partir de um descompasso a nota vital do blues, deduzimos logo que o ser pensante, afinado ao extremo, ao ter acesso a um instrumento musical pela primeira vez em sua vida, o encontrará completamente desafinado. E se ao cantar a melodia, Tom Jobim diz: “Se você disser que eu desafino amor, saiba que isso em mim provoca imensa dor, só privilegiados tem ouvido igual ao seu, e no peito do desafinado também bate um coração, isso é bossa nova, isso é muito natural…” Isso é lindo! E ele também, o “Tom”, provavelmente usava roupas de indigo blue! Indigo BLUES ÃO!

O azul está presente em toda parte do mundo. Azul é a matiz mais lembrada e favorita de muitos, inclusive é a minha, portanto percebi que alguns olhos são azuis, que o amor é azul, a beleza é azul, Krishna é azul, o lápis é azul e a tristeza americana pode ser definida assim também… Em diversas expressões de língua inglesa, lá está ele, o blue, majestosamente imperando com sua versatilidade de significados e expressões, tais como feeling blue, got the blues ou simplesmente blues tendo o significado de “tristeza” e “melancolia”, sing the blues pode ser interpretada como “reclamar”, também na língua americana temos o baby blues, uma espécie de depressão pós-parto mais amena. Há também, expressões poéticas como once in a blue moon significando “raramente”, of the blue veio “do nada” ou blue ribbon “primeira qualidade”.

A subjetividade do tema provoca, uma vez que o azul, mesmo não estando presente em tudo, de alguma forma, inconsciente ou conscientemente, está lá, singular e imponente, diante de nossos olhos; dos que podem e dos que não podem enxergar; claro, escuro, vivo, acima de nossas cabeças, sobre nossa pequenez… o azul do céu a nos sinalizar quanto mistério ainda há por decifrar. De jeans, navegar por aí…

Adriana Castro é artista plástica e designer de interiores.

9 comentários em “Índigo blue

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