Por favor não tocar na obra; Chei(R)o de recalque

Por favor não tocar na obra; Chei(R)o de recalque

Hélio Neiva

  • CHEI(R)O DE CERTEZAS VIVAS

Incerteza viva é o tema da Bienal de São Paulo (2016), que faz os visitantes revisitarem o que um dia se chamava natureza. Estamos na procura incerta da ordem do orgânico, uma ordem imperativa após sequelas de uso abusivo e contínuo dos produtos industriais. Será possível depois de metidos pela linguagem voltar ao estado orgânico? Esse trem de orgânico e inorgânico está com cheiro do que Freud chamou de pulsão de morte. Aquela força constante de certeza viva que dá nó no ser falante. Certeza talvez por causa da titulação de morte que marca a certeza da vida.

Pulsão de morte não é mortífera. Por mais que a neurose tente voltar para um estado inorgânico com ela, o que fica é uma certeza viva que quer mais, compulsivamente mais. Desmontar o circuito da pulsão para reinventar outros. Haja Fort-Da para tanta força. Pode-se até dizer que sua tendência suicida é criativa. Mas nada se cria sem a linguagem, tudo se refina nela.

Antes da corrida do ouro orgânico; quem recicla lixo, quem tem consciência do corpo e da vida em volta, quem vai de bicicleta ao trabalho, etc. Devido ao acúmulo dos males estares da cultura, antes da busca do perfeito culturado mundo, houveram viradas entre os séculos. O que num século é lixo já foi um dia luxo. Já seria hora de mandar para lixeira o virtual e as redes sociais, uma luxúria da falta de refinamento da fala?

É de desconfiar que um mal-estar de um século é sequela do gozo das maravilhas tecnológicas ou cientificas do século anterior. Se hoje se morre de medo de morrer das falências do corpo e se deseja voltar a promessa de um mundo orgânico que não acaba em seu próprio lixo, e por isso delira numa vida limpa e “natural”, deve-se agradecer a maravilha da virada de um século. Uma das maiores descobertas da humanidade, desculpa Freud, mas não foi Darwin e sua teoria evolucionista, nem Galileu e o heliocentrismo, mas sim a invenção do refinamento. Termo chique para falar de extração físico-química da natureza. Extrair ouro dos restos mortais de nossos antepassados dinossauros até a busca da pureza das malditas plantas naturais.

Houveram quatro efeitos desse refinamento, que causaram prazer e desprazer do seu uso. E por incrível que pareça, pode se morrer dos quatro. O refinamento do açúcar, um processo de higienização desta especiaria, permitido a cristalização do tornar doce o paladar. O refinamento da farinha e o milagre da multiplicação dos pães e do seu prazo de validade. E um terceiro refinamento muito caro a Freud e a psicanálise, o da folha de coca, que nos permitiu a anestesia do século dezenove para a droga do século vinte; a cocaína.

Se o século dezenove estava em busca de tecnologia para apaziguar a fome, a dor e a escuridão, já no abusado século seguinte a fuga virou culpa. Da anestesista ao droga-dito (aposta de que no abuso da droga se espera um dizer), um percurso não só da cocaína; com o avanço farmacêutico em anestesiar o mal-estar da cultura esse torna também o da heroína. E no que viria a ser a indústria inorgânica farmacêutica? Da fuga à culpa de quem? De quem pulsa na contramão da máquina econômica da indústria do divino lucro ou do indivíduo na busca incompleta da satisfação?

Dar nome de indivíduo, ego, eu, narcísico é muito fácil para virar palavrão seguido de sermão. O indivíduo é um nome indevido pela complexidade do que a fala produz. A questão é que após ingerir tanta refinaria haveria de sair uma máquina refinada da fala, todavia isso não acontece em qualquer lugar. Seria necessário o século virar para querer saber dos sonhos e refinar o discurso.

Freud faz esse quarto refinamento. Um que não recai sobre a culpabilidade em indevidos eus e egocentrismo, Um discurso refinado que é a psicanálise não seria sem efeitos a escolha do desejo de Freud em publicar o livro da Interpretação dos sonhos em 1900. Um desejo de encontro com o que está por vir. Refinamento de um sujeito que fala porque o recalque inicial foi orgânico. Freud já sentia o cheiro do século que viria, mas ainda não sabia que o odor iria trazer à tona o esgoto, pois publicar é produzir lixo. A cultura foi feita pelos esgotos já afirmava Lacan sobre a publicação de seus Escritos.

  • POR-FAVOR NÃO TOQUE

Na Bienal uma coisa era certa; havia obras que indicavam a permissão ao toque e outras, que davam um tesão de tocar, mas era proibido. O tesão viria pelo proibido ou por que não basta só olhar? As passivas de toque não tinham tesão, não tinham cor e muito menos textura. Não havia texto que suportasse o desejo de tocá-las. Mesmo os textos críticos que tentavam explicar a obra sustentavam a mão aberta que dizia sim.

As proibidonas, eram guloseimas de textos, enredos que vinham à cabeça, lembrança de um dia tocar o proibido. Qual a graça de apenas admirar algo que remete à natureza? Uma instalação sobre moscas que causa náusea, mas uma náusea que não toca as fezes; por favor não toque nas moscas. Não toque na areia da instalação sobre bruxaria moderna da artista da Nova Zelândia: Te ver e não te querer é improvável é impossível.

A pulsão de morte apela; Não saio dessa sem texturar! Areia sobre aço derretido, aquilo faz sentir mais. A civil(easy)idade que exige sensibilidade numa obra de arte não cabe em conter o destruir para marcar, é preciso tempo para admirar, para ficar lá nem que seja para sempre mais um segundo.

Refinar é modificar a textura, o que permite a abertura para o sensível. O mal-estar que clama por antidepressivos e outros alucinógenos da anestesia moderna é um mal dito sobre o sensível. Se a psicanálise é um refinamento do discurso, fazer dizer alguém que não sabe o que está falando é também, nesse processo de refinamento, abrir o sujeito para o que lhe texta em volta.

A sensibilidade causada pelo refinamento do discurso da psicanálise parece com a abertura das portas da percepção, abrir sentidos. Porém, uma análise se propõe a desfazer sentidos fixos pela fala, palavras que pareciam que não indicavam mais nada, pois se acreditava que havia entendido uma só coisa, mas a coisa pede mais.

Um fenômeno novo para tratamento de ditos dependentes da cocaína é o uso de uma alternativa orgânica; santo daime, aiwaska, chá indígena e por aí vai. Dizem que é indicado até para tratamentos depressivos. Abrir as portas pela via do orgânico, na contra mão do entupimento industrial, essa é a promessa do ritual xamânico ou do processo religioso. Ficar sensível mas sob o controle da natureza e de palavras de sentido fechado. O chão do pai numa análise vai além do pai-chão, as paixões se apresentam no ritual, mas fica na máxima do bem comum religioso. A análise permite o pai matar o filho, não no orgânico, mas sim no discurso. Sente o orgânico ou eu te mato. É muita miséria para a experiência sensível! Na psicanálise a sensibilidade é permitir o sujeito texturar, dar sentido com a exclamação do real; Se vira menino!

Dunker, o psicanalista paulista do momento, diz que o significante mestre seria um nó de sentido às perguntas dos porquês dada pela criança. O fechamento de uma cadeia de significantes, quando respondemos para a criança curiosa que é assim porque sim, ou porque não, fechando assim qualquer questão. Nodulamos o pequeno perverso polimórfico em neurótico que não mais enche o saco do adulto.

O lacanês vicia, a topologia e os matemas lacanianos podem ser consumidos compulsoriamente, haveria saída orgânica para esse maltrato com a psicanálise? Ivan Corrêa aposta na tropologia, ou como Lacan já dizia a saída pela literatura. Seria a literatura a saída orgânica da letra? Já que nós ocidentados resumimos a letra em química NH1, H2O, TCH…

  • PARECE COCAÍNA, MAS É SÓ BRASÍLIA

Uma canção pop de rádio pode fazer o trabalho de significante mestre, escutar Legião Urbana na infância teve esse defeito. Está certo que na música a rima da cocaína era com tristeza, mas após a adolescência numa roda de cocainômos, um amigo recanta a frase, fazendo os “lesgões” (sujeitos compulsivos a repetir o ritual do uso da cocaína) por incrível que pareça, rir. A cocaína rima sim com tristeza, com a rebordosa de que não se é tão poderoso assim, doce ilusão enrijecido pelo pó em homo fálico.

Na cidade de Brasília, onde se concentra o poder e a fissura por ele, a cocaína tem sentido. A droga que faz falar, pessoas chegam a palestrar sobre teoria e sobre tudo saber, mas na verdade se fala para evitar a verdade que o poder evapora. Na cocaína se fala muito, mas não se diz; Eu presto atenção no que eles dizem, mas eles não dizem nada. Na saída orgânica um chá alucinógeno do mato e a voz de um Xamã para por o pé no chão, calar o silencio pós noites de pó. Pó ai vai, mais uma saída, mas ainda o sujeito que cheira não disse nada.

Uma amiga e colega de trabalho na psicanálise confessou um dia que sempre estranhou o ritual de cheirar cocaína, ela dizia que havia um se curvar para a droga, cheirar era se rebaixar, quase ficar de quatro. Sim é verdade. Cheirar parece que não é coisa que um falasser deva fazer. Mas o que fazer com o nariz depois que resolvemos ficar de pé?

Na obra de volume um dos Fundamentos da Psicanálise: de Freud a Lacan, do carioca Marco Antonio, há um belo texto com o título de apêndice, que merecia receber título de órgão funcional, sobre o recalque orgânico, dito por Freud em o Mal-estar da cultura. Em que a relação de adquirir a bipedia e os efeitos sobre a sexualidade, que deixou de ser animalescamente cíclica, para humanoidemente visual e atemporal.

Se um dia foi de quatro, o que orientava a cópula era o cheiro, mas o cheiro ainda pulsa, será porque o recalque orgânico volta para assombrar a higienização da cultura? Bípedes os órgão sexuais se avolumaram, até a bunda na sua história ganhou volume e textura. Mas basta ver para se excitar? Para realmente haver o tesão pelo falo, seja o pau ou a buceta, temos que pelo menos por a boca até o talo! No talo o nariz coça o cheiro dos pelos pubianos, agora sim, não basta ver, temos que tocar, oralizar e cheirar a obra.

Não nos orientamos mais pelos cheiros de perigo, de fezes que avisam que o outro esteve aqui, porque o Outro está entre nós e um cheiro nem sempre fede. O objeto de amor pode feder, mas e o cheiro do sujeito? Ou o tesão virou o último perfume francês para homens bem sucedidos? Se usam perfume para disfarçar o próprio cheiro, para iludir um ser cultuado pelas normas da cultura, também o perfume, detergentes e produtos de higiene entram para anestesiar o mal estar. Perfuma para não se haver com o orgânico, sim orgânico é aquilo que um dia vai feder porque empobrece, perde o poder. Por mais fálico que os perfumes prometam deixar nos eretos, eles anestesiam e diluem a alucinação de que não há mal a vista. Cheirar cocaína para anestesiar. Do que? Parece que se anestesia da verdade. Até o poder de Brasília um dia vai virar pó.

A cidade e sua compulsão merecida. Se cada cidade tem a compulsão que merece isso diz do seu sintoma. Uma droga inibe a cidade de se haver com o que sente mal. Parece que a inibição, o sintoma e angustia é a primeira tríade de Freud para saber do jogo da vida entre falantes. São Paulo se intitula a cidade da garoa que não para, que ironicamente para o trânsito em qualquer chuva.

 Um paulista não vai só à Bienal em um dia, tem a peça de teatro do amigo, o show de jazz no Jardins e antes um passeio no parque Ibirapuera. A cidade e uma imunidade de coisas para assistir, admirar e consumir. Se faz de tudo um pouco sem assim mexer no sensível. O que estava ali para questionar o sujeito, trazer uma angústia que pede um tempo de reflexão e de repente vira consumo. Onde que o EU foi e onde que o Eu viu. Angústia, pois tem tudo isso para ver e trabalhar. Entretanto, não basta gostar de arte, “tem que” consumir e estar “por dentro”, imperativos para não ficar de fora. Logo de fora, onde Lacan brinca que é lá que está o inconsciente primeiramente. Os de fora estão na Cracolândia.

Cracolândia, os únicos que ficam parados a digerir a cidade e fora da compulsão ao consumo cultural. Eles correm, para fazer o corre, depois que fumam são eles que ocupam as estátuas, as praças, os casarões do café abandonados, eles que filtram a cidade. E compõem os grafites que não causam mais desejo aos cotidianos paulistas. São Paulo não só merece a Cracolândia, mas os paulistas dependem dela. Ela que marca a diferença, são os usuários de crack que têm tempo para admirar as ruinas da cidade, eles são os estrangeiros da própria terra.

E falar dessa cidade cabe aos estrangeiros. Freud amava odiar Viena e por um tempo tinha fobia de viagens; quanto mais viajava mais sabia escutar os gritos de sua cidade. Goiânia não merece e nem quer ser bandeira e bandeirante de SP. Há aqui uma inibição de querer neuroticamente responder à cidade mais velha, mas que ainda dá tempo de não vir a ser tomada como um sintoma, a cidade do césio tem saída orgânica? O cheiro do pequi que o diga.

Um cheiro muda para vir a ser um amor. O cheiro orgânico dos restos de nossos familiares causam repulsas. Mas quando amor por um estrangeiro vem, sentir o suor, a flatulência, o bafo, na verdade o hálito vira outra coisa. Um cheiro que remete a carinho e carícias, outras texturas nas representações do inconsciente sobre o que era o resto. Abrir para as texturas é possibilitar se doar à diferença, que já começa porque não é tão familiar assim.

Quando o recalque passa do orgânico para o primário e secundário permite a um terceiro, não familiar, fazer um laço amoroso. Se existe amor em SP é porque eles também querem cheirar outras texturas. O cheiro passa de objeto amado para sujeito desejado e de desejo. Se fixar num objeto amoroso Isso vai feder e calar a boca ou provocar vômito. Um sujeito que atiça um outro falasser, bafo vira hálito do desejo. Na clínica a flatulência de um analisante fede sim, óbvio! Mas se a aposta é num sujeito, os cheiros têm que passar pela boca e assim se tornar outra textura. Amar é receber as escatologias, por saber que elas não se resumem à binariedade do orgânico e inorgânico.

 

Autor: Hélio Neiva. Mestre em Psicologia Clínica e Cultura pela UnB. Membro em formação da Fazenda Freudiana de Goiânia. neivahelio@gmail.com

2 comentários em “Por favor não tocar na obra; Chei(R)o de recalque

  1. “O que estava ali para questionar o sujeito, trazer uma angústia que pede um tempo de reflexão e de repente vira consumo.” Esta frase me tocou e remete à questão, volta e meia lembrada mas ainda não devidamente compreendida, ou não devidamente aprofundada (certamente me escapou uma boa análise, reconheço) da fuga, para a maioria de nós, leitores comuns, digamos. Não tenho tanta propriedade, é certo, para maiores questionamentos, mas me angustiar me fez bem muitas vezes, sob o efeito de leituras, visões e sons … que só depois (horas, dias, anos) pude perceber e reconhecer. E… acho que a arte nem sempre nos toca com delicadeza. Ainda bem; às vezes precisamos de uma bela de uma porrada pra sentir a beleza e a feiura de verdade. Um abraço!

    1. Nossa! como seu texto a partir da leitura do texto ficou bom! Escreva mais pra nós! Textos inteiros, achei que vc acertou em cheio na interlocução. meu obrigada

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *