“Internet ilimitada”, e gratuita?

“Internet ilimitada”, e gratuita? 

Daniela Teperman

A criação dos filhos interroga aqueles que se encarregam das funções parentais, os convoca a produzir respostas (elas não estão prontas ou definidas previamente) e os desafia a fazer escolhas. Não há como se ocupar dessas funções de forma linear e sem conflitos, tampouco há um modo correto e inequívoco de ser pai ou mãe.  Neste sentido, podemos dizer que pais e mães assumem um risco ao educar seus filhos.

O desafio de educar se intensifica quando levamos as crianças a sério, quando as tomamos como interlocutoras, quando falamos com elas – não só delas ou sobre elas – e quando as escutamos. Quando as levamos a sério, as crianças fazem perguntas, demandam, interrogam-nos acerca do modo como as coisas funcionam no mundo em que vivemos. Interrogam particularmente seus pais e suas mães a partir das hipóteses que vão formulando sobre como estes se relacionam com o próprio desejo.

Tem sido comum pais, mães e educadores comentarem que na atualidade o desafio de educar as crianças se intensificou. Será? Mesmo fazendo a leitura de que vivemos em uma época permeada por mudanças tanto no laço social quanto no campo da família e da criação das crianças, acho difícil responder a essa questão sem recair em um discurso saudosista ou até mesmo normativo. No entanto, creio que um exercício possível seja nomear as particularidades da nossa época no que diz respeito à família e à criação das crianças e também as dificuldades e sofrimentos que daí podem decorrer. E bem, nossa época não pode ser pensada sem a referência a objetos como a internet, as redes sociais, os jogos eletrônicos, os celulares, tablets, etc. Proponho então, com esse pequeno texto, refletir sobre o uso destes objetos particularmente nos primeiros anos de vida da criança.

Se, por um lado, é verdade que cada época tem suas características e estas incidem no funcionamento das famílias e nos modos de sofrimento das crianças, por outro, é preciso destacar que, o que uma criança precisa para subjetivar-se está para além da época em que ela vive.

E o que uma criança precisa? Precisa de adultos que assumam determinadas posições, que se ocupem da criança a partir de um interesse particularizado, que se responsabilizem por transmitir as leis e os modos em que vivemos e que possam dar testemunho do seu desejo e também de como se viram com a falta.

E então a família pode modificar-se, e se modifica, mas não temos motivos para pensar que o que uma criança precisa não pode ser contemplado nas diferentes configurações familiares que se organizam na nossa época.

Uma criança também precisa de tempo, tempo para brincar, tempo para elaborar suas experiências, e precisa encontrar adultos que, por estarem há mais tempo neste mundo (como dizia Hannah Arendt) assumam a responsabilidade de introduzir a criança nos seus modos de funcionamento.

Sobre o tempo não podemos dizer que ele não mudou em nossa época. Nós, adultos, habitantes das grandes cidades, queixamo-nos insistentemente de que nos falta tempo. E muitas crianças, frequentemente com suas agendas lotadas, com seu tempo todo preenchido, também tem carecido de tempo.

Sobre a responsabilidade dos adultos em relação às crianças, ou, o modo como se supõe que os adultos deveriam se relacionar com as crianças também há mudanças, e estas decorrem de mudanças no discurso social.

Vivemos em uma época em que se investe no prazer imediato, na busca pela felicidade, no consumo de objetos como forma de eliminar qualquer traço de angústia. Pois bem, como estes aspectos tem incidido nas famílias?

Os pais, eles mesmos pressionados por esse discurso, são muitas vezes levados a acreditar que devem poupar e também satisfazer seus filhos, que o encontro com qualquer menção à falta ou à tristeza deve ser evitado, e que os objetos podem cumprir a função de despistar, adiar ou relativizar a falta.

No entanto, o exercício parental não ocorre sem o risco de se recair em uma certa impopularidade. E este é outro ponto central na nossa época. Atualizar a criança no mundo em que vivemos e que funciona de certas maneiras e sob certas regras – dizer “não”, enfim – também tem sido uma tarefa difícil e trabalhosa.

Difícil dada a vida corrida e atribulada que levam as famílias na nossa época, dada a pressa e a falta de tempo que também imperam, e difícil justamente porque o discurso social insiste em convencer-nos de que devemos proporcionar às crianças satisfação e felicidade. Para poder dizer “não” é preciso que os pais possam recortar esse discurso, suportar o desagrado da criança e aguentar a impopularidade que daí decorre.  E bem, o adulto não diz “não” porque quer cercear a criança, tampouco diz “não” ao seu bel-prazer, o adulto diz “não” porque ele também não pode tudo.

Então: busca incessante pela felicidade e satisfação imediata e o consumo como modo de responder ao aparecimento da angústia, resultam em uma dificuldade da nossa época em lidar com a falta, com a descontinuidade, com a perda.

Vejam que a falta é o que nos move como desejantes, e que o excesso é outra característica de nossa época. O excesso de brinquedos, de atividades, de ocupações deixa a criança sem tempo vazio, sem a experiência do vazio. A criança que não tem a experiência do tempo vazio fica impelida ela também a preencher e demandar que todo o seu tempo seja preenchido. E aí encontramos crianças que perseguem os pais com “o que vamos fazer agora?” E bem, os objetos de nossa época servem perfeitamente a essa demanda: pode-se ficar conectado o tempo todo ou, outro modo de dizer, por tempo ilimitado.

Na atualidade, vemos crianças fazendo as refeições diante das telas, realizando os percursos de sua rotina diante das telas, viajando com a família diante das telas. Com isso, perdem a oportunidade de vivenciar cada uma dessas experiências, elaborá-las e trocá-las com os adultos e familiares que estão à sua volta. São essas crianças que muitas vezes encontramos aborrecidas e entediadas, sem saber o que fazer no tempo livre. Destaco que o horário conhecido por nós como recreio ou parque tem sido vivenciado com angústia por algumas crianças, já que ali, com sorte não lhes dizem o que fazer ou como preencher o tempo…

Assim, é preciso lembrar aos pais que amar seus filhos não equivale a satisfazê-los. Que é preciso que se responsabilizem pela sua posição como adultos e tolerem o desagrado dos filhos. No lugar disso encontramos muitas vezes crianças insistentes e pais exauridos…

Atualmente nos vemos diante de objetos que vem revolucionando o mundo tal qual o conhecíamos, especialmente os modos de nos comunicarmos, nos relacionarmos e interagirmos (os exemplos são inúmeros: internet, redes sociais, whatsapp, skype, jogos virtuais, celulares, tablets…). E somos convocados a nos posicionarmos diante desses objetos e do uso que fazemos deles.

Paralelamente, as crianças também nos demandam uma posição. Mas, se estamos às voltas com o nosso próprio uso desses objetos, como podemos responder, encontrar uma posição possível para as demandas que as crianças formulam sobre seu uso?

E então destacar o que uma criança precisa para se subjetivar e qual a responsabilidade dos adultos na família pode ser um bom modo de recortar essas questões e encontrar uma posição possível.

Isso não quer dizer que se trata de pretender criar crianças fora da época em que vivem ou de privá-las dos objetos de sua época. Mas bem, o que acontece com a pequena criança no encontro com objetos como celulares, tablets, computadores, jogos virtuais, etc? Ali ela se encontra com o ilimitado. E a oferta do ilimitado é mais uma marca de nossa época: “internet ilimitada”, “acesso ilimitado e gratuito”, etc.

Ilimitado. O que não tem fim. E vejam, que não tenha fim é difícil até mesmo para nós, adultos. Desligar-nos desses objetos que nos ofertam o ilimitado, nos custa…

Recentemente publicada, no Jornal Folha de São Paulo a coluna de Antônio Prata intitulada “A décima vez que a gente assiste” (28/08/2016) me parece um ótimo exemplo disso. Segue o primeiro parágrafo do texto:

“Vamos assistir o quê?”, ela pergunta, se aboletando no sofá. É sexta à noite, as crianças estão na casa da avó, não temos nenhum compromisso social, nenhuma pendência profissional, chove lá fora e aqui, caro Lobão, não faz tanto frio, pois estamos debaixo de um cobertor; à minha frente uma TV gigante, na minha mão um controle pequenininho e a poucos cliques, via Apple TV ou Netflix, praticamente todos os filmes ou programas televisivos já produzidos desde a invenção do cinematógrafo. Parece a abertura de uma noite perfeita. Parece.”

Uma direção que tem sido assumida por pais e profissionais em geral é que o uso desses objetos pelas crianças precisa ser regulado e monitorado.

Mas a questão é mais complexa quando se trata de uma criança pequena. Pensem na seguinte cena: a criança quer o celular da mãe para jogar, a mãe hesita, diz para o filho que não é bom jogar muito, a criança insiste, insiste ainda mais se percebe que a mãe hesita.

Agora, não é possível aqui pretender que a criança entenda que não é bom para ela jogar o tempo todo. Ela acha bom! Então cabe ao adulto decidir e se responsabilizar por sua decisão.

Com as crianças maiores é diferente, além do monitoramento, há a conversa e a reflexão. E então sim, pode haver negociação, até porque a criança mais velha pode compreender melhor os riscos da exposição na internet, por exemplo, mas ela pode também apresentar e justificar aos pais suas demandas e até mesmo o interessante uso que faz desses objetos.

A criança pequena, no entanto, se encontra com o ilimitado e com um fazer que envolve competências e habilidades (aqui me refiro sobretudo dos jogos) que permitem que ela ganhe pontos e avance de fase, mas que não lhe serve para o contato com os colegas, para resolver os conflitos na família ou na escola. Diante da tela, a criança prescinde da relação com os outros. Não só, não é preciso haver-se com os outros – em muitos dos jogos e atividades disponíveis – para ter sucesso e avançar.

E então no lugar de brincar e tudo que o brincar implica pode se impor o jogar, e a criança pode se encontrar sem o tempo necessário para construir recursos para fazer frente às demandas desse mundo no qual ela ainda é nova.

Aqui não se trata apenas de uma reflexão sobre o uso dos jogos eletrônicos pela pequena criança, na clínica é possível constatar o prejuízo e o sofrimento em que se encontram as crianças que tiveram ou ainda tem o uso desses objetos no lugar das experiências, no lugar das relações, no lugar do brincar.

Desta forma, cabe à família – e depois à escola – cuidar para que as crianças pequenas não sejam excessivamente expostas a esses objetos. Ao mesmo tempo, é preciso que os adultos, sobretudo os pais e as mães, continuem sustentando o valor das relações com o outro, das experiências e do brincar na criação das crianças.

Daniela Teperman é psicanalista, mestre em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pelo IPUSP e doutora em Psicanálise e Educação pela FEUSP. Participa da Equipe Clínica e de Pesquisa do Instituto Gerar. É autora dos livros “Clínica Psicanalítica com bebês – uma intervenção a tempo” (Fapesp/Casa do Psicólogo) e “Família, parentalidade e época: um estudo psicanalítico” (Fapesp/Escuta).

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *