Virtude e verdade

Virtude e verdade

Karla Jaime

 

– Perdi a virtude, só me restou o recato.

A fala da senhora Mariana, interpretada por Marjorie Estiano na minissérie Ligações Perigosas, baseada na obra de Chordelos de Laclos e que foi exibida pela Globo, me fez pensar. Em lágrimas, a personagem afirmava estar perdida, porque mesmo o recato manteve-se intacto não por sua vontade, mas pelo cuidado (manipulação?) do outro (Augusto, vivido por Selton Mello), que não quis consumar o ato ao qual ela já se entregara. Conclui que não há salvação em preservar a própria carne ou as convicções se tal resistência não decorrer de decisão e propósito pessoais.

Como saber até onde vai a resistência de cada um? Apenas com a experiência, porque o teste tem de ser vital, passar pelo sangue. Na teoria, costuma ser mais fácil que os argumentos prevaleçam, ludibriando quem ostenta uma aura de magnanimidade apenas porque foi poupado do pavor de mirar no espelho uma outra face, latente, à espreita de uma brecha para se manifestar.

Sempre tive receio dos muito convictos da própria virtude, porque tendem a ser inexoráveis no julgamento de si mesmos e ainda mais no das outras pessoas. O erro, a falha, uma certa sujeira e feiúra reconhecidos em si facilitam a humildade, sem a qual a rigidez do orgulho nos condena à impossibilidade de compaixão.

Nunca, jamais, não admito, não aceito… palavras e expressões dos que se apegam a certezas, quase sempre sem passar pela prova da experiência. Palavras duras, cortantes, que inviabilizam o diálogo.

Qual o mérito da imagem de perfeição incólume de quem “passou por essa vida e não viveu”, para citar o verso de Vinicius, que continua assim: “… porque a vida só se dá pra quem se deu, pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu”.

Não há como negar o risco sem se tornar estéril, seco. “Viver é perigoso”, lição muito citada, mas pouco compreendida, do mestre Guimarães Rosa.

Não há como aprender sem duvidar, questionar. Certezas são siamesas da ignorância, combinação propícia ao fanatismo. E o que é o fanático senão o que abomina e exclui tudo que lhe ameace o controle fincado nas certezas?  Quantos já não foram humilhados, torturados, execrados, mortos em nome de uma causa totalitária, do fascismo ao comunismo, passando pelas religiões? Com horror, vemos que ainda se mata, e muito, execuções sumárias em nome de Deus e da Pátria. O que sugere a questão: a fé em princípios ou mística vale o sacrifício de uma vida? Um mundo melhor e a transcendência divina podem ser alcançados quando se acredita que isso se faz atropelando tudo e todos que não comunguem do mesmo dogma?

Fanatismo se alimenta de martírio, como se prazer e alegria contestassem sua firmeza.  Neste século 21 de tantas conquistas científicas e tecnológicas, do Oriente ao Ocidente vicejam bandeiras ainda embaladas por ventos da idade das trevas, como se o Renascimento e todas as maravilhas dele resultantes não se constituíssem em patrimônio da humanidade, em especial no que representaram como conquista de liberdade e livre expressão.

Os que ousaram ser livres pagaram preço alto, muitos com a morte precoce, porque a entrega generosa tem custo elevado. Mergulho no abismo, vertigem. Bem mais tranquila e confortável a mediocridade, é certo. Mas o que seria da nossa tão presunçosa espécie sem a coragem dos que recusaram fechar os olhos, tapar os ouvidos e, sobretudo, calar a boca? Lampejos de lucidez e criatividade. Galileu, Francis Bacon, Darwin, Freud, Rimbaud, Oscar Wilde, Pasolini, Dorothy Parker, Frida Kahlo, Camille Claudel, nomes que exemplificam o legado de tantos destemidos, ainda assim pérolas raras num oceano de vulgaridade.

Ser autêntico e verdadeiro é para pouquíssimos. A cautela recomenda   adequações, cuidado para limitar a mensagem ao que possa ser captado sem as distorções provocadas pela absoluta ausência de referenciais. Todos convertidos, à força, em Zelig, protagonista da sátira de Woody Allen de 1983, que merece ser vista e revista. O personagem tem uma síndrome de camaleão, assume a aparência e o comportamento daqueles com quem se relaciona. Fenômeno não tão raro, como diagnosticam no filme os especialistas, porque afinal quantas máscaras usamos num único dia?

O medo de se expor não é por acaso. Dar a cara despida de disfarces equivale a dar a cara a tapa. Mas se esconder ou metamorfosear sob o peso das circunstâncias é ser condenado a eterna solidão, ao exílio interior dos covardes, apavorados pela perspectiva de rejeição. “O que os outros vão dizer? O que os outros vão pensar?” O molde exterior como camisa de força.

Então vamos, cordiais e contidos, forjando a cortesia necessária ao bom desempenho dos papéis sociais, escamoteando desejos e frustrações, aferrados ao previsível e ao pré-concebido, antessala do preconceito, da raiva, da intolerância, da incapacidade de conviver em um mundo plural, rico porque pleno de diferenças.

Vamos lá, agarrados a regras incontestáveis e à rotina pegajosa, de dedo em riste para os proscritos.

Vamos juntos, na mesma corrente, na mesma implacável direção.

Mor-te, apenas duas sílabas que temos todos de pronunciar e atravessar com os recursos de que dispomos, tenhamos explorado a vida com seus encantos, mistérios, dores, erros e tropeços ou, com o escudo dos iludidos, nos resguardado na clausura de uma autoimagem imaculada.

 

POEMA EM LINHA RETA

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma covardia!
Não, são todos o Ideal, se os ouço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

5 comentários em “Virtude e verdade

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