Sintoma é comunicação

     “Comecem por acreditar que vocês não compreendem… compreender o que o outro diz é colaborar com suas resistências.” É o que anuncia Lacan no seminário das psicoses, e de saída nos dá a pista para que se possa pensar a comunicação a partir de um novo prisma depois de Freud. Comunicação, do latim comunicare, se traduz no dicionário da língua portuguesa por fazer saber, tornar comum, falar, corresponder e ainda transmitir.

Do ponto de vista da psicanálise: quando alguém fala, diz o quê? Existe correspondência entre aquele que comunica e aquele que recebe o comunicado? O que é transmitido é o mesmo que foi pensado ou imaginado? Faz-se saber o que a partir do supostamente comunicado?

A medicina por não conseguir responder à psicopatologia humana apenas por via das necessidades instituais e comprometimentos orgânicos, abriu brecha para que nascesse uma nova forma de tratamento, tratamento do real pelo simbólico. É a psicanálise filha de Freud, que pretende uma nova concepção de práxis clínica, imposta por uma dimensão de sujeito: sujeito constituído de linguagem e habitado pela pulsão de morte, não apenas regulado pelo princípio lust-unlust (prazer-desprazer).

Cunhada na existência de uma dimensão humana incognoscível, o inconsciente, a psicanálise testemunha a comunicação como algo da ordem do mal-entendido, da ordem do que está sempre por se dizer, portanto da ordem do ainda não entendido. Parte-se da noção de inconsciente estruturado como linguagem, onde o significante encontra-se desatrelado de um único significado. Daí o significante família, por exemplo, significar muitas coisas e coisas distintas para sujeitos diferentes.

O significante em si não significa nada, a não ser quando remetido a outro significante, daí torna-se lei, ao menos na psicanálise, desconfiar do enunciado, ele sempre quer dizer outra coisa, a mais. A distância entre o enunciado e a enunciação é apontada a partir de Lacan ao propor um retorno a Freud se valendo também de F. Saussure, marcando com isto a alteridade do significante de onde emergirá a significação pessoal, mas sem se valer dele, não se faz nada. É como perceber que a epiderme é o que já mais de profundo na fisiologia humana.

Supõe-se comunicação feita pela linguagem verbal, não-verbal ou escrita. Para tal encontra a língua como eixo, sistema sincrônico de grupos de oposição estruturados, mas, além disso, há o que se passa diacronicamente no tempo, que é o discurso. A noção de discurso é fundamental, trata-se de liame social, laço que denuncia a posição de onde se comunica.

É através do discurso que aparecem as manifestações do inconsciente: sonhos, esquecimentos, chistes, atos falhos, sintomas, e é via discurso que se faz a clínica psicanalítica. A psicanálise propõe uma escuta diferenciada na medida em que aposta no saber inconsciente, que apesar de recalcado da consciência possuiu um funcionamento próprio que faz sintoma.

Sintoma é comunicação, sintoma produz eco… que pode permanecer mudo ou não, mas sempre com seus efeitos. Vocábulo eminentemente médico, traz confusão. Noção de algo que deve ser eliminado para que emerja uma cura. Do inconsciente, cura o quê? O sintoma em medicina é um signo (ou sinal) no sentido peirciano de que se há fumaça há fogo, ou seja, onde há sintoma há doença. Na psicanálise, se há fumaça pode ser que haja fumante, nos diz Lacan. Quem dá o significado (doença) ao significante (sintoma) é o olhar médico a partir de sua própria verdade epistemológica. É o médico quem sabe, a partir do que o paciente apresenta como sinal, o que este tem de patológico.

Para a psicanálise o que há de patológico no sintoma é o que este tem de pathos enquanto paixão do sujeito pelo sintoma. Sim, o sintoma em psicanálise é constitutivo do sujeito, revelando sempre algo de cunho sexual, isto é universal, o sintoma possui um sentido sexual recalcado da consciência, que revela ao mesmo tempo um sofrimento, bem como um modo de gozo do qual é difícil lançar mão. O sintoma é caro para o neurótico por representar sua forma de satisfação sexual, que pode ser mais ou menos histérica, mais ou menos obsessiva, não importa.

O sintoma em psicanálise tem por excelência um sentido sexual. Algo desta ordem que, recalcado da consciência, retorna sob a forma de sintoma. Se o sintoma é a forma de comunicar-se do sujeito na medida em que traz o recado inconsciente, então este expressa justamente o que não fora realizado na ausência do recalque, ou seja, o que é comunicado via sintoma é o que não foi realizado em seu teor sexual como tal, complicando com isto as “relações” humanas e evidenciando a não correspondência sujeito-objeto, a impossibilidade da relação sexual. O que falta em um não é o que está escondido no outro.

Por que alguém diz – “eu te odeio” quando na verdade quer dizer – “eu te amo”? Os mal-entendidos são inerentes à própria condição da linguagem, e, no entanto são extremados pela imposição da neurose. A psicanálise aparece como forma de tratamento desses mal-entendidos, na medida em que leva cada um a comunicar-se melhor com seu próprio sintoma, com sua condição de falta provocada pela dimensão inconsciente.

A neurose encaminha o sujeito no sentido da impotência, onde seu gozo está preso a um modo de funcionamento estrutural. O discurso analítico faz a mão contrária, na medida em que abre a possibilidade de dentro da impossibilidade, a produção a partir do sintoma e não contra ele.

Há algo contido na verdade do sintoma, mas algo que só pode se revelar se escutado. O sintoma é, apesar de comunicador, inicialmente mudo, e a práxis da análise sustenta justamente a posição de fazê-lo falar. A arte de BEM-DIZER o sintoma abre portas para uma forma original de comunicação, comunicar o que já está em operação na cadeia significante, mas não está na medida em que ainda não foi dito, comunicado via sintoma.

 

Referências Bibliográficas:

CALDAS AULETE. Dicionário de Língua Portuguesa. Ed. Delta, 1980, 3ª edição.

CORRÊA, I. A escrita do Sintoma. Publicação do Centro de Estudo Freudianos do Recife, 1996.

FREUD, S. O sentido dos sintomas, in: Conferências introdutórias sobre psicanálise- parte III. Edição Standard Brasileira, vol. XVI, Rio de Janeiro, Imago, 1969.

_____Além do princípio do prazer. In: Edição Standard Brasileira, vol. XVIII, Rio de Janeiro, Imago, 1969.

LACAN, J. O seminário- Livro 3- As psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1964.

QUINET, A. A descoberta do Inconsciente: do desejo ao sintoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 2000.

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