Paradoxo do grito

     Há rumores de que Munch não seria o verdadeiro autor da pintura expressionista de 1893, famosa por representar O Grito. A questão da autoria é sempre complicada. Como queria Freud: é a obra de arte que nos interpreta, e não nós a ela. No entanto, o que “grita” no momento é a singularidade do grito.
Os recém-mortos de Santa Maria foram incendiados em um período bem próximo à alegoria anunciada pelo calendário convencional que ditava: é carnaval, podem gritar! Assim, enquanto pierrôs e colombinas saíam de suas mesmices e começavam a se preparar para “gritar” a fantasia, no que ela é passível de ser encenada, ainda era possível sentir a fumaça e ouvir os gritos dos jovens queimados, morrendo em uma boate da cidade badalada.

Na condição de espectadora do universo, alcancei o fato do quanto esta situação acontece o tempo inteiro e em todo lugar. Um bebê deixa o ventre, um grito de vida. Uma mulher toma um choque e morre, outro grito. Um homem realiza o sonho de ganhar na loteria e grita, ao passo que do outro lado da mesma galeria, uma jovem pode gritar de desespero mediante um diagnóstico de doença terminal. Na porta do 401, a moça recebe flores e grita. Alegria. Na janela do 402, o velho gritou. Solidão.

Na mão que sobe a Rua do Sol, em São Luís, Maranhão, um bêbado grita de amor; na mão que desce a mesma rua, na mesma 13h45 daquele dia, um garoto grita, mas de fome. O menino desocupado não gritou por falta de opinião, seu pai não gritou por afasia. A jovem gritava enquanto alucinava pela onda do crack, sua tia, na mesma casa, no mesmo dia, gritava porque já não tinha o que sonhar/delirar…
Um grito pode significar tantas coisas… pode exprimir algo que sabemos, algo que não sabemos ainda, mas podemos sentir. Pode expressar dor, alegria, desespero, covardia. Um grito pode representar silêncio, agonia, amor, ironia, apatia.

Um grito pode ser uma vontade de quebrar a monotonia ou a expressão real e silenciosa da pulsão de morte, pode ser também desejo de “nada” (melancolia), mas o mais forte do grito é que ele pode se transformar em palavras, em afeto palavreado amolecendo aquilo que não descia, pois estava preso à garganta.
As psicopatologias repousam na imobilidade energética, expressão de que algo parou de funcionar bem e precisa ser examinado. O curioso exame das emoções… Um grito bem escutado pode virar teatro, tela, romance, alegoria. Um grito bem tratado pode reacender luz onde já não mais havia. No cinema, a mocinha da plateia grita. Uma bala atravessou uma garganta que gritava, era o bandido. Formas imagéticas de grito… cada um em seu lugar.

3 comentários em “Paradoxo do grito

  1. “Um grito bem escutado pode virar teatro, tela, romance, alegoria.” Lembrei-me do evento da AGAV, “O Novo Grito”, em julho (ou agosto) deste ano (estive lá e divulguei na minha página Diálogos & Reflexões). Não sei se você, Isabella, desenha ou pinta mas fiquei imaginando como seria a sua performance/participação neste evento… Quanto a autoria da pintura (O Grito), desconheço a polêmica existente a respeito. Excelente este seu texto!

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