Whats up?

Whats up?

      A primeira vez que ouvi a expressão “whats up” foi no Estado da Geórgia, Estados Unidos, lugar onde questões raciais são bastante acirradas. Era década de 90, portanto bem antes de Steve Jobs fazer acontecer sua fantástica invenção que desaguaria no, claro, fabuloso iPhone. A expressão ficou registrada com uma certa arrogância no ar, mais ou menos assim: “O que está acontecendo aqui que te faz estar cá e não acolá?” Para o que seria simplesmente: “O que está acontecendo?” Ou: “E aí?” Whats up? Pois é claro que no universo das palavras, tudo depende do tom em que são empregadas. Quando faladas, as palavras portam uma musicalidade que muda totalmente o sentido da frase. É nisto que quero tocar, afinal ninguém pode negar que alguma coisa está acontecendo em nível conjuntural e de altíssimo alcance, no que diz respeito à comunicação humana. O homem é um ser de fala, constituído de linguagem em todo o seu processo metaforonímico, ou seja, produz e é produzido por metáforas e metonímias, e dessa linguagem não há como escapar. Por isso ele precisa da poesia, da nuance, do intervalo, do deslizamento fonêmico capaz de dizer para além das palavras em si. A língua é o código, mas existe uma linguagem que ultrapassa idiomas e lexias.

      Me lembro da época em que se comemorava a ida do homem à Lua, mas agora eu lhes pergunto: pra onde é que o homem vai, na medida em que ao invés de falar e se manifestar, ele se comunica por um aplicativo chamado WhatsApp que por homofonia se assemelha a whats up – e daí minha lembrança norte-americana.

    Sim, acredito, de saída, que a humanidade atualmente sofre de uma espécie de barbárie incrementada e disfarçada de civilidade. São pequenos detalhes de um cotidiano no mínimo invadido. Por exemplo, quem te acorda? É isto mesmo, quem acorda você? Não posso garantir, mas a probabilidade de que seja um daqueles aparelhinhos barulhentos chamados de celular é quase fatal. Letal também, sabia?

     É, quando lançaram os primeiros aparelhos avisaram que seria prejudicial à saúde, mas alguém quer saber disso? Afinal são tantas maravilhas que seu pequenos celular lhe oferece… Com ele você joga futebol e pensa estar se exercitando, com ele você acredita vigiar a namorada via on-line no WhatsApp e ainda por cima imagina garantir saber do paradeiro da turma pelo Facebook. O detalhe é que ninguém se dá conta dos efeitos colaterais da nova droga, ou seja, as pessoas ao invés de se relacionarem entre si se relacionam com máquinas e assim estão cada vez mais distantes do outro e delas mesmas. Máquina a gente desliga, já gente…

     É verdade, antigamente parecia uma dádiva conversar com o filho no Alasca pelo Skipe, mas a longo prazo isso pode ser uma boa razão para que ele esteja cada vez mais lá e menos perto de você! Entende? De repente as pessoas viram suas vidas vigiadas e controladas por maquininhas selvagens. As mensagens emitidas por celular se tornaram armas de defesa, defesa contra o que há de mais humano, ou seja, a fala. É comum hoje em dia acordar com alguém te amando ou te odiando pelo celular e o pior, se sentindo isento de compromisso com a fala. São amigos magoados, inimigos disfarçados, relacionamentos finalizados, consultas desmarcadas, recados indignados, tudo autorizado pelo doutor WhatsApp!

     Falar é mais difícil que digitar, falar é mais difícil que cantar, que opinar, talvez mais difícil até que chorar! A maravilha do século que se encaixa em apenas uma de suas mãos pode ser uma arma apontada para você! Não se iluda.

 


Whats up? – Jornal O Popular
Veja mais em: http://www.opopular.com.br/editorias/opiniao/da-reda%C3%A7%C3%A3o-1.146392/whats-up-1.628001

 

 

2 comentários em “Whats up?

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