Amargo doce

     A dietilamida do ácido lisérgico foi sintetizada pela primeira vez na Suíça, país de onde temos notícias dos mais elevados graus de suicídio no mundo inteiro. Em seu livro LSD, My Problem Child, seu descobridor, o químico Albert Hofman explorou importantes questões sociais que levaram a droga à completa ilegalidade na maioria dos países, inclusive para pesquisas científicas e clínicas. Mesmo assim, alguns continuaram se arriscando na busca de encontrar aplicabilidade medicamentosa para tal substância e seu uso acientífico se espalhou.

Descoberta ainda na década de trinta, mas disseminada com força nos rebeldes anos sessenta, a droga parece estar com lugar marcado na atualidade. Sintetizada a partir da cravagem de um fungo do centeio (Claviceps purpurea) a dietilamida do ácido lisérgico é diluída e apresentada em forma de barras, cápsulas, tiras de gelatina, líquidos, micropontos ou folhas de papel secante (como selos ou autocolantes). Sua dose média é de 50 a 75 microgramas, ou seja, microscópica. Uma quantidade quase invisível é suficiente para disparar seus efeitos que são de ordem, ou melhor dizendo, de “desordem” alucinógena.

     A substância, que é ironicamente conhecida como “doce”, é consumida por via oral, absorção sub-lingual, podendo também ser injetada ou inalada. Age imediata e diretamente sobre os sistemas neurotransmissores serotononérgicos e dopaminérgicos, inibe a atividade dos neurônios do rafe (importantes em nível visual e sensorial), e provoca efeitos de hiperatividade e alteração de todos os sentidos. Largamente consumida e disseminada nos chamados movimentos psicodélicos, a droga encontrou em seu caminho vítimas fatais. Jim Morrison, Janis Joplin, Aldous Huxley e grupos como, Jethro Tull e Pink Floyd, são nomes que se destacam como tendo publicado suas experiências com o LSD. No entanto, o que fica esquecido, quase não revelado, é que embora a substância seja a mesma, os efeitos não o são. As experiências são relativas à estrutura psíquica de cada um, podendo afetar determinados aspectos em uns e em outros não. Os riscos com o uso do LSD são extremamente particulares, sendo em muitos casos passível de desencadear inclusive uma psicose, com todos seus episódios de surtos delirantes e alucinatórios. Não existem apenas dois extremos para o gosto do LSD: o bom humor excessivo e a morte por overdose. Entre um e outro, mora uma infinidade de possibilidades nem sempre “doces”, nem sempre reversíveis. Não apenas em meu consultório, mas também nos meios sociais por onde circulam muitos brasileiros letrados. Tem-se notícias muito frequentes do uso indiscriminado do LSD, hoje, conhecido como “docinho”.

     Muitos jovens chegam a se valer da viagem adquirida por baixo preço, até mais de uma vez por semana, sendo que o tempo de absorção desta substância pelo organismo é em torno de pelo menos 8.760 horas (o equivalente a um ano). Não se trata de nenhuma campanha, afinal, basta ler o rótulo de qualquer produto industrializado que consumimos diariamente, pleno de drogas de conservação, que entraríamos em outro campo de conversação. O que está em questão neste artigo é a banalização com que o LSD tem sido consumido na mesma proporção que o chopp.

     O assunto está comum, o acesso facilitado, as festas regadas e a moçada (lembrando que são de todas as idades), se esbaldando sem nenhum conhecimento ou esclarecimento do poder maléfico do “doce”. Foi este ano, antes de eu decidir entrar de férias, que uma ‘analisante’ viajou. Saiu feliz do consultório as seis e pouco da tarde com a mochila já arrumada, muitas ideias fervilhantes na cabeça, de projetos de vida e trabalho. Tendo enfim rompido com o caso-problema dos últimos anos, parte para o mundo em busca de aventura e gente nova, um novo amor talvez, e muitos, muitos amigos ela queria, pois se livrara da amargura e almejava uma nova vida. Lembro-me que naquela tarde ela estava especialmente bonita. Essa coisa de ficar bonita de chinelas havaianas e cabelo recém lavado que pouca gente consegue. Ela conseguia. Conseguia? Sim, daquela viagem ela nunca mais voltara. Não aquela jovem faceira e questionadora, mas veio outra no lugar, agora trazida pela família. Chegou sem brilho, sem viço, sem cor, sem o tal amor, mas sobretudo, sem a liberdade da fala.

2 comentários em “Amargo doce

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